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ARTIGOS
1. QUE VALEM OS HORÓSCOPOS DE JORNAL?
José Prudêncio
Quando se fala em astrologia ocorrem de imediato as ideias dos Signos do Zodíaco e da previsão do futuro, no entanto, ambas são formas simples de pensar um assunto que é muito mais profundo.

Um mapa astral, para além da posição do Sol, inclui a posição da Lua, dos planetas e do Ascendente e do Meio-do-Céu. O mais importante é a relação que os planetas estabelecem uns com os outros no momento do nascimento, os aspectos planetários, as relações ao longo da vida, os trânsitos planetários. Só através da análise do mapa astral na sua totalidade e dos trânsitos se pode conhecer uma pessoa e prever as suas tendências futuras.

Os Signos do Zodíaco desempenham um papel lúdico, são um jogo social que fornece um meio para conversar, uma primeira ideia sobre alguém que se acabou de conhecer. Dá às pessoas um sistema de referências psicológicas de uso imediato, que acaba por servir como meio de identificação e de auto-conhecimento.

Pertencer a um Signo do Zodíaco tem uma função semelhante a pertencer a um clube de futebol, ou ser duma certa região do país, ou de pertencer a um bairro. É mais um elemento de identificação, de cumplicidade, uma forma de nos colocarmos a nós mesmos numa dada posição e de nos ajudar a definir quem somos. Estes jogos simbólicos acabam por ter uma importância maior do que imaginamos, é por isso que, mesmo pessoas que de todo “não acreditam em astrologia” acabam por conhecer o seu Signo e por se identificarem com ele.

Não é fácil termos uma ideia objectiva de nós próprios, para nos compreendermos acabamos sempre por recorrer a esquemas interpretativos e sistemas de referência que nos permitem situarmo-nos perante os outros e perante nós mesmos. Em grande medida acabamos por ser aquilo que acreditamos que somos.

A crença de que cada pessoa tem um determinado Signo que a caracteriza surgiu no princípio do século XX, quando os jornais tiveram a ideia de explorar um dos aspectos mais simples da astrologia: a posição do Sol nos Signos do Zodíaco ao longo do ano. Essa ideia veio a ter uma grande divulgação ao ponto de, em qualquer jornal, passar a haver uma coluna com previsões diárias para cada Signo.

O sucesso dessa ideia deveu-se à combinação de dois aspectos interessantes:

1. Um sistema de caracterização em doze tipos psicológicos, com o qual as pessoas se identificam, e serve como meio rápido de identificação.

2. Previsões que davam a impressão de serem pessoais e de fazerem sentido em função das experiências vividas nesse momento.

A linguagem genérica desses pequenos textos presta-se a ser interpretada em termos pessoais e a «fazer sentido» em função das experiências subjectivas. Os seres humanos tendem a projectar-se nas coisas e a compreendê-las em função das suas próprias vivências e opiniões, é por isso que qualquer leitura sobre temas humanos pode ser interpretada como dizendo respeito directamente a nós.

Ainda que não possam ser comparados com o nível de profundidade duma consulta individual feita através do próprio mapa astral, esses textos apelam ao bom senso, dão conselhos, sugerem atitudes, e levam a pessoa, a quem supostamente se dirigem, a parar por um momento e a pensar sobre si mesma, o que é bom, o que pode até ser muito útil e oportuno. Ler um horóscopo diário pode ser um momento de interioridade e de auto-avaliação, uma pequena prática espiritual.

Este artigo pode ser utilizado desde que referido o Autor e o Site:
Referência do artigo: Prudêncio, José (2007) "Que Valem os Horóscopos de Jornal?", www.joseprudencio.com\____2_artigos.html
2. QUAL O SIGNO DA SUA LUA?
José Prudêncio
O mais provável é que não saiba onde estava a Lua no momento em que nasceu, nesse instante em que pela primeira vez respirou independentemente da sua mãe.

Pois é, toda a gente sabe o Signo do seu Sol mas poucos sabem o Signo da sua Lua. Sim, porque o chamado «meu Signo do Zodíaco» é precisamente a posição do Sol no dia do nascimento. Assim, quando alguém diz que é do Caranguejo ou do Sagitário, isso significa que nasceu numa determinada altura do ano em que o Sol estava nesse Signo.

É fácil saber qual a posição do Sol porque esta se repete todos os anos aproximadamente na mesma data. Diferentemente, a Lua tem um movimento muito mais rápido percorrendo todo o Zodíaco em vinte e oito dias, pelo que a sua posição só pode ser correctamente calculada através dumas Efemérides planetárias ou dum programa de computador.

O ciclo de 28 dias da Lua constitui o mês lunar, que é ligeiramente inferior ao mês de calendário. É este o mês que se usa quando nos referimos aos nove meses de gestação, e ao ciclo menstrual da mulher. Parece que este ciclo lunar tem também influência sobre os humores e as alterações emocionais, tendo-se verificado que, nos hospitais, há mais acidentes, mais problemas com álcool e maior instabilidade nos doentes psiquiátricos nos dias de Lua Cheia.

Conheço vários médicos que dizem ter notado que nas urgências aos fins-de-semana em que há Lua Cheia, a afluência é muito maior, tanto devido a mais acidentes como a maiores perturbações emocionais, maiores excessos de álcool e drogas.

A Lua tem influência sobre as marés. Simbolicamente tem relação com a água e com a noite. A um nível mais interior, podemos admitir que tenha uma influência subtil nos seres humanos por estes serem compostos maioritariamente por água.

A vida interior, a sensibilidade e as emoções estão representadas num mapa astral pela posição da Lua e pelas relações que esta forma com os outros planetas. Por exemplo, se uma pessoa nasceu com a Lua em conjunção com Vénus, tende a ser simpática, ter uma aparência física atraente, ter modos harmoniosos e reacções emocionais suaves. Tende a procurar o equilíbrio com os outros e a evitar conflitos, sendo uma boa relações públicas, com facilidade em comunicar com o público. Diferentemente, alguém que tenha nascido com a Lua em conjunção com Saturno – que representa a seriedade, o esforço e o tempo – tende a ser reservado, tímido, mais dado ao trabalho prático e a uma natureza melancólica.

Tão importante como a posição do Sol, que representa a individualidade e a consciência de si, é a posição da Lua, que representa as emoções e as reacções, a necessidade de segurança e de protecção, o equilíbrio psicológico, os primeiros anos de vida e a relação com a mãe. Vários aspectos fundamentais da natureza duma pessoa podem ser compreendidos através da análise da Lua no mapa astral de nascimento.

Um grande astrólogo inglês, Charles Harvey, um amigo e um ser humano duma qualidade extraordinária, que infelizmente já nos deixou, escreveu um livro muito interessante sobre as 144 combinações possíveis: Sol e Lua, Editora Pensamento. Contém tabelas que permitem a qualquer pessoa calcular a posição da Lua e descobrir mais sobre os outros e sobre si.

Num próximo artigo, abordarei outros aspectos relacionados com a Lua nas nossas vidas. Num mapa astral o Sol representa o pai e a Lua representa a mãe. O que pode dizer sobre a Lua em relação à nossa segurança interior e à nossa vida emocional, é um dos aspectos mais ricos e interessantes da filosofia astrológica.

Este artigo pode ser utilizado desde que referido o Autor e o Site:
Referência do artigo: Prudêncio, José (2007) "Qual o Signo da sua Lua", www.joseprudencio.com\____2_artigos.html
3. ASTROLOGIA E PROFECIA AUTO-REALIZADA
José Prudêncio
Num filme de 1983, “Zelig”, Woody Allen desempenha o papel de Leonard Zelig, um artista camaleão-humano que se transforma e muda de personalidade e de aparência em função do ambiente onde está inserido.

Aparte esse caso extremo, todos temos um pouco tendência para nos transformarmos naquilo que os outros pensam ou esperam de nós. Para além disso, a sociedade exige que nos adaptemos constantemente a novos ambientes, situações e pessoas. Acabamos por ser forçados a desenvolver personalidades múltiplas, por cumprir vários destinos particulares.

No meu entender, deixa de ter sentido falar de “destino” para se falar antes de destinos, várias vidas, realidades separadas em que somos diferentes pessoas. O desenvolvimento da informática e da Internet, com a realidade virtual, abre campos ainda mais vastos em que podemos ser quem quisermos… e por vezes a fantasia acaba por ter mais peso do que aquilo a que gostamos de chamar “a realidade”.

Em Psicologia da Educação, é conhecido o Efeito de Pigmaleão, que é a tendência do aluno para corresponder às expectativas que o professor tem em relação ao seu desempenho. Se ele percebe que o professor o acha um bom aluno, tende a ter um desempenho melhor, sendo também verdade o inverso. Uma coisa tão simples, como um mero sorriso no momento de entregar uma prova escrita, pode ter influência na confiança do aluno e nos seus resultados.

No que respeita à previsão do futuro, em especial de coisas negativas, existe o perigo da “profecia auto-realizada”, em que a pessoa acaba por criar a situação que lhe foi prevista. Mesmo que isso não aconteça de facto, uma previsão negativa fica activa a nível subconsciente, minando a confiança e o entusiasmo, instalando-se um mal-estar, uma “psicologia de dia cinzento”.

Todos fazemos, mais ou menos conscientemente, previsões sobre nós próprios. Estamos convencidos que somos capazes de certas coisas e que outras nos estão vedadas. É típica a sensação de perigo e de medo de perder aquilo de que gostamos muito. Minamos as nossas possibilidades através deste tipo de previsões, dizendo interiormente a nós próprios, e estando intimamente convencidos, de que não vamos obter aquilo que mais desejamos. Noto isso constantemente nas minhas consultas, em particular no domínio das relações amorosas.

Uma mulher que já teve uma ruptura amorosa é bem capaz de dizer “não tenho sorte ao amor”, não se dando conta que, desse modo, está a fazer uma previsão que a vai condicionar e, finalmente, produzir aquilo em que acredita.

A astrologia pode ser um instrumento poderoso para identificar tendências – aquilo que estamos programados para acreditar – e desse modo servir para trazer à consciência os condicionamentos e os problemas. Algo do nosso mundo interior, de que não temos consciência clara ou que evitamos, vai actuando de forma silenciosa e descontrolada, basta trazer essa realidade à palavra, torná-la objectiva, para que ela perca muito do seu poder limitador e assustador: temos que aprender a reconhecer e a falar com os nossos demónios para que eles não estejam continuamente a lutar contra nós… com a nossa própria colaboração.

Inversamente, podemos desenvolver previsões construtivas, trabalhar nelas todos os dias, programarmo-nos para obtermos melhores resultados. Nas consultas de orientação e previsão, procuro justamente ver que potenciais podem ser despertados e utilizados para construir um outro destino mais consciente e mais livre.

É um pouco como na história da humanidade, em que vemos que certas ideias tiveram efeitos catastróficos sobre a vida de milhões de seres humanos, enquanto outras tiveram um poderoso efeito libertador e construtivo.

6.10.2007

Este artigo pode ser utilizado desde que referido o Autor e o Site:
Referência do artigo: Prudêncio, José (2007) "Astrologia e Profecia Auto-realizada", www.joseprudencio.com\____2_artigos.html
4. ASTROLOGIA E DESTINO
José Prudêncio
Que é o destino? A etimologia é latina e significa “prender”, “sujeitar”, “afectar a”, “atribuir a”. O significado habitual é: desenrolar dos acontecimentos duma vida fixados antecipadamente. Esta ideia de destino pressupõe um poder ou uma inteligência predeterminantes que fixam previamente quando e como as coisas vão acontecer.

Há termos correlativos como “determinismo”, “fatalismo” e “providência”. Por determinismo entende-se uma relação necessária entre uma causa e um efeito; é uma noção que se fundamenta na lei física e que pressupõe que, dada uma causa se segue necessariamente um dado efeito. Diversamente, o fatalismo não decorre da lei física mas de ideias filosóficas ou religiosas e considera que os acontecimentos são inelutáveis, quer dizer, não se pode lutar contra eles porque nada há a fazer.

A providência é um termo que vem da metafísica e da teologia; é um atributo divino graças ao qual Deus guia os acontecimentos em função dum determinado fim que entende ser o melhor. Colocar-se nas mãos de Deus significa que alguém aceita o seu destino com a fé de que, no final, tudo acontecerá pelo melhor, de acordo com a suprema bondade e vontade de Deus. Vem daí o ditado popular “Deus escreve direito por linhas tortas”, ou seja, mesmo que os seres humanos não compreendam os males e os sofrimentos que lhes acontecem, mesmo que estes lhes pareçam absurdos e cruéis, eles têm um sentido e são expressão da perfeição do plano divino.

Não posso deixar de sentir carinho e veneração por um plano divino que inclui – no tempo que gasto a escrever este artigo – milhares de homens, mulheres e crianças a sofrer e a morrer pela guerra, pela miséria e por doenças insondáveis.

Havendo um destino fixado providencialmente por uma inteligência suprema, é bem de ver que aos seres humanos apenas compete aguardar calmamente os acontecimentos, colocar-se à guarda de Deus, e tentar compreender que as coisas acontecem porque têm um fim que deve ser aceite com alegria: eis a sabedoria!

Pelo menos, este era o ideal de sabedoria medieval. O ideal humanista, científico e tecnológico, que se começou a desenvolver a partir do Renascimento, é outro e funda-se no espírito de investigação da causa das coisas nas próprias coisas, na razão e no saber fundado na experiência.

Pico Dela Mirandola, por exemplo, numa obra tipicamente renascentista, Acerca da Dignidade do Homem, afirma que o ser humano não está sujeita a nenhum tipo de determinismo ou fatalismo, que seriam incompatíveis com a sua natureza e dignidade.

As filosofias de inspiração racionalista, humanista, iluminista e o espírito científico, não são dados a acreditar que baste aos homens colocar-se nas mãos de Deus – mesmo admitindo que Deus tenha de facto mãos – antes preferem lutar por construir um mundo humano, mais justo, guiado pela razão, livre de superstições e de crenças religiosas opressoras. Antes acreditam no poder da inteligência humana para construir uma humanidade melhor em que as palavras Liberdade e Felicidade não sejam apenas elementos de retórica ou de doutrinação.

E tudo isto para chegar ao ponto que me interessa: a Filosofia Astrológica, que é uma coisa diferente da astrologia popular ou da astrologia esotérica. Trata-se duma filosofia que, tendo por referência o nosso sistema solar e os movimentos dos planetas, procura analisar as natureza dum ser humano, as suas tendências e as fases importantes da sua vida, de modo a ajudá-lo a desenvolver as suas melhores capacidades. A Filosofia Astrológica aceita apenas a hipótese dum “destino tendencial” mas não de um destino previamente escrito e inelutável.

Qualquer doutrina ou sistema filosófico só são úteis se ajudarem os seres humanos a livrarem-se dos seus medos e a tornarem-se mais conscientes das suas possibilidades, com mais poder sobre a sua vida, construtores do seu próprio destino.

30.10.2007

Este artigo pode ser utilizado desde que referido o Autor e o Site:
Referência do artigo: Prudêncio, José (2007) "Astrologia e Destino", www.joseprudencio.com\1-artigos.html
5. ADIVINHAÇÃO E PREVISÃO
José Prudêncio
Em De Divinatione Cícero apresenta um argumento radical contra toda a adivinhação, onde também inclui a astrologia, considerando-a irrelevante e inútil. Segundo esta perspectiva há um paradoxo em toda a predição: se esta é correcta, nada se pode fazer para mudar o futuro predicto, se é errada, então é disparatada e inútil.

Inversamente, acredito que o futuro está apenas tendencialmente definido e não absolutamente determinado. Muitas vezes a melhor previsão é aquela que não se chega a realizar, mas que ajudou a tomar consciência e a compreender mais profundamente os factores envolvidos na situação e permitiu que se tomassem as medidas para que esse futuro negativo não se chegasse a realizar. Neste sentido o futuro é negociável.

Um dos valores duma consulta de astrologia pode ser facilitar a tomada de consciência sobre os factores que condicionam a nossa vida num dado momento e proporcionar uma melhor compreensão de nós próprios ajudando no processo de tomada de decisões.

A adivinhação do futuro é de facto irrelevante, se nada se puder modificar. Para além de que há coisas, tal como afirmava Cícero, que mais vale não saber. Por exemplo, conhecer certas desgraças antecipadamente, nada podendo fazer para as melhorar, não só é inútil como antecipa o sofrimento.

Conhecer o futuro é sempre uma actividade de ordem hipotética e conjectural. No limite o futuro é impossível de prever com segurança. Podem sempre acontecer coisas a um nível geral que afectam as tendências particulares. É isso que se verifica no caso de grandes catástrofes colectivas.

Pode ter-se dado o caso de, antes do terramoto de Lisboa de 1755, alguém ter ido a um bom astrólogo que lhe previu uma fase de florescimento económico e felicidade… para passadas umas horas o seu negócio e ele próprio serem engolidos pelas águas do Tejo. O astrólogo falhou? Depende. Em termos absolutos sim, pois houve um “destino” de ordem colectivo, não é previsível pelo mapa astral dum indivíduo, que se veio sobrepor ao seu “destino” individual. É por isto que digo que, no limite, nenhuma certeza podemos ter sobre o futuro... nem sequer que vou comer logo ao jantar o salmão fumado que tenho no frigorífico.

Por outro lado, a previsão pode ser de um grande valor quando nos ajuda a compreender a direcção para onde nos levam as nossas acções actuais. Nesse sentido a melhor previsão pode ser aquela que não se chegou a realizar, mas que serviu para repensarmos o nosso presente.

No fundo, a previsão tem mais interesse para o presente do que para o futuro. Ao procurarmos saber o nosso futuro estamos de facto a reflectir mais profundamente sobre as nossas possibilidades actuais, e a redireccionar a nossa vida para um potencial mais favorável.

No limite, a última previsão vai ser aquela que fala da nossa morte - não ser que nos ocorra sermos os primeiros imortais sobre a Terra - pelo que esse desejo de querer saber o futuro revela antes os nossos próprios medos do presente e, no limite, uma atracção pela morte.

Para este problema, actualmente, só há duas vias: o das crenças sobrenaturais e religiosas ou a via filosófica. Eu prefiro a segunda… chegar a um acordo de princípio com os meus medos e os meus demónios, buscando uma felicidade apenas humana.

Sobre isto Bertrand Russel escreveu uma obra valiosa: A Conquista da Felicidade.

Este artigo pode ser utilizado desde que referido o Autor e o Site:
Referência do artigo: Prudêncio, José (2007) "Adivinhação e Previsão", www.joseprudencio.com\____2_artigos.html
6. O MECANISMO DA ASTROLOGIA
José Prudêncio
Qual o mecanismo que explica o funcionamento da astrologia?
Esta é uma pergunta habitual nos meios científicos, com a intenção de negar a validade da astrologia, por se considerar que não existe nenhum mecanismo, força ou energia conhecidos que possam explicar o seu funcionamento.

Para dar uma resposta minimamente consistente tenho que fazer um breve enquadramento epistemológico da questão.

David Hume, na sua obra Investigação Sobre o Entendimento Humano, levantou o problema de explicar o conhecimento da causa e do efeito, um dos fundamentos da ciência moderna, no sentido em esta acreditava que explicar um fenómeno equivale a identificar a sua causa.

A ciência moderna tomava a relação causal entre fenómenos por evidente. Hume diz que ao falarmos de causa e efeito caímos fora do domínio da observação, uma vez que não vemos uma causa e um efeito mas apenas fenómenos contíguos. Mostra que entre causa e efeito não há uma relação necessária, ademais, a uma mesma causa podem corresponder vários efeitos, ou um efeito ser resultado duma constelação de causas. Isto levanta problemas a uma visão mecanicista que concebe o universo como uma máquina funcionando por leis necessárias e previsíveis.

Diz Hume que aquilo que nos parece uma relação causal necessária antes se funda no nosso hábito perceptivo e na crença de que este se irá repetir como no passado. O raciocínio que fazemos, tendo por base a fé na experiência anterior, é que aquilo que julgámos verificar é certo e continuará a repetir-se. Hume acrescenta que também o peru que é alimentado todos os dias pelo seu dono se habituou a essa regularidade e tem a expectativa que isso vai ser sempre assim… até ao dia em que chega o Natal e servirá de repasto.

Estas questões do século XVIII – que obrigaram muitos espíritos a acordar do seu sonho dogmático das verdades únicas e da certeza científica - tiveram grandes desenvolvimentos no começo do século XX e vieram complicar muito mais as concepções mecanicistas e causais, que se julgavam verificadas conclusivamente pela experiência positiva.

Em 1905, Einstein publica o seu primeiro artigo sobre a relatividade restrita, onde considera o tempo e o movimento relativos e a matéria como uma forma de energia. Pouco depois Niels Bohr começa a desenvolver a teoria quântica, onde mostra que as leis da física clássica não se verificam no nível sub atómico. Por exemplo, ilogicamente, a luz tanto podia ser uma partícula sólida como uma onda desprovida de matéria. Estas questões vieram lançar por terra a epistemologia clássica e a crença no valor definitivo da ciência. É sobre isso que falam Kuhn, Popper, Russel.

A resposta ao ilogismo da ciência dada pelos cientistas foi semelhante à forma como os matemáticos reagiram à refutação da certeza matemática por Gödel. Em 1931, Gödel mostrou que a matemática continha um paradoxo: qualquer sistema complexo, como a matemática, fundava-se em axiomas e proposições aparentemente verdadeiras que, no entanto, não podiam ser provadas ou refutadas dentro do próprio sistema. Com isto, entre outras, perdeu-se a crença de que a matemática se podia fundar de forma definitiva na lógica.

Apesar desta incompletude da matemática, a resposta dos matemáticos foi adoptar uma posição assente no senso comum: ela funciona, as pontes baseadas em cálculos matemáticos não caem. Prevaleceram as razões da prática.

Igualmente fazem os cientistas, que continuam a fazer a ciência e a obter resultados no contexto particular das suas equações e teorias, mesmo sabendo que não têm uma teoria geral consistente que as funde. Ou seja, não temos uma teoria consistente que nos explique a natureza e a ordem do universo, mas isso não nos impede de funcionar com eficácia em domínios particulares.

Isto para, finalmente, dizer que não conheço o “mecanismo” que explica a astrologia e que faz funcionar a minha prática astrológica. Ignoro também o mecanismo que me anda a levar os cabelos, mas suspeito que a coisa se explicará melhor numa lógica organicista do que numa mecanicista.

Digo também que a astrologia não é uma ciência, e que mesmo que alguns dos seus postulados possam vir a ser comprovados empiricamente, isso é irrelevante para a prática astrológica, naquilo de que ela já é capaz de fazer ao seu melhor nível.

Aqueles que afirmam que a astrologia é uma ciência, que apenas os conhecimentos científicos têm utilidade, ou que atacam a astrologia como se esta pretendesse ser científica compreendem mal estas questões, colocam-nas em termos irrelevantes. É certo que há muitos astrólogos menos esclarecidos que podem ter a pretensão de que a astrologia é cientifica, o mesmo se passa com muitas pessoas que não têm uma noção correcta nem do que é a astrologia nem do que é uma ciência.

Acrescento que até talvez conheça um “conjunto de mecanismos” – ou de hipóteses explicativas – para a astrologia e o seu funcionamento e sobrevivência ao longo de séculos, mas isso é assunto para um outro lugar.

As qualidades humanas mais profundas e a capacidade de compreender o nosso universo têm alguma base na inteligência lógico-dedutiva mas vão muito além disso.

É claro que estou acostumado a que os espíritos simples, fascinados com a sua “cientificidade” tenham o universo por objectivo e evidente, não lhe chamando por isso “o nosso universo” mas antes “o universo”, numa lógica que ainda não foi claramente compreendido o quanto é devedora da tradição da verdade única judaico-cristã. Têm por isso dificuldades em compreender que aquilo a que gostamos de chamar “a realidade”, “a ciência”, “a verdade”, “a moral”, são antes uma multiplicidade de construções humanas, de realidades, de técnicas de abordagem, de modelos interpretativos, que estão dependentes do seu contexto de utilização para terem sentido.

Lisboa, 30.8.2007
Este artigo pode ser utilizado desde que referido o Autor e o Site:
Referência do artigo: Prudêncio, José (2007) "O Mecanismo da Astrologia", www.joseprudencio.com\____2_artigos.html
7. SOBRE A MÁ IMAGEM DA ASTROLOGIA
José Prudêncio
A má imagem da astrologia não é uma coisa que me preocupe muito, o que é mais importante é também haver, para além do nível popular e lúdico, um nível de estudo e de abordagem fundamentada e crítica.

Por exemplo, as previsões do final do ano só têm sentido se forem entendidas como divertimento, como jogo. Não vejo problema em que a astrologia seja utilizada no nível vulgar ou popular, que seja utilizada por outras pessoas num nível religioso, ligada às suas crenças pessoais e à sua fé, o problema é quando se reduz a astrologia a esse tipo de visão.

Um mestrado como o que fiz em Inglaterra, em “Astronomia Cultural e Astrologia”, com investigadores de toda a Europa, permite compreender com mais clareza que a forma como os seres humanos podem lidar com o céu, os modos como o céu foi interpretado ao longo da história das civilizações, a forma como isso serviu para organizar a vida humana, para organizar o tempo, para organizar a própria prática política, o que revela uma dimensão da astrologia essencialmente cultural, ligada à organização do Estado, das pessoas.

Esta interpretação erudita ou mais desenvolvida da astrologia foi abandonada devido a, numa determinada época, terem mudado as concepções de espaço de tempo. As concepções científicas do século XVI e XVII vieram lançar por terra as bases tradicionais da astrologia. Essas bases da astrologia estão ligadas a uma concepção do espaço e do tempo qualitativa e hierarquizada, é o chamado cosmos aristotélico-ptolemaico em que o mundo está organizado com a Terra no centro, seguindo depois os vários elementos, a água, o ar, o fogo, a esfera da Lua e dos planetas e finalmente a esfera das estrelas fixas. Isto representa um determinado modelo do universo em que existe o "em cima" e "o em baixo".

Com o universo de Newton deixa de haver cima e baixo, o espaço passa a ser considerado homogéneo e isomorfo, logo deixa de se considerar que o espaço e o tempo possam exercer influências, tal como se julgava na Física de Aristóteles, em que uma determinada posição no espaço exercia uma dada influência: ter nascido com a Lua a nascer ou com Saturno a culminar entendia-se que produzia de imediato um determinado tipo de influências. Numa concepção do espaço em que este deixa de ter forma e é homogéneo, isto deixa de ter sentido.

O que fez a epistemologia do século XX, por exemplo Thomas Khunn, foi verificar que o modelo científico que se desenvolveu a partir do século XVI é apenas mais um modelo, só que esse modelo pretendeu afirmar-se como o único possível, como o único verdadeiro, como o único científico.

Por exemplo, quando analisamos a teoria geral da relatividade de Einstein, verificamos que em aspectos importantes a sua concepção de espaço está mais próxima de Aristóteles do que das concepções de Newton. Aí começa-se a perceber que o modelo que a astrologia apresentou numa dada época continua a fazer sentido, a ser racional e a funcionar num dado contexto.

E tanto funciona que apesar da contínua oposição da ciência ao longo de mais de três séculos, apesar da oposição do pensamento religioso que se quer único, a astrologia subsiste. Ainda que isto não sirva para demonstrar a cientificidade da astrologia, serve para nos levar a reflectir e a interrogar sobre o valor que ela poderá ter, que respostas satisfatórias dá a necessidades humanas. Se não o fizesse, há muito teria desaparecido.

Este artigo pode ser utilizado desde que referido o Autor e o Site:
Referência do artigo: Prudêncio, José (2007) "Sobre a Má Imagem da Astrologia", www.joseprudencio.com\____2_artigos.html
8. PSICANÁLISE E ASTROLOGIA
José Prudêncio
Freud que a psicanálise tinha pretensões modestas: “transformar uma neurose numa infelicidade vulgar”. Karl Jung não concordava totalmente, por isso se dedicou a estudar o chamado ocultismo, as tradições espirituais da humanidade e a astrologia.

Numa carta escrita ao astrólogo indiano B. V. Raman, em Setembro de 1947 Jung escreveu:

“Dado que quer saber a minha opinião acerca da astrologia, posso dizer-lhe que me tenho por esta actividade particular da mente humana desde há mais de 30 anos. Como sou um psicólogo, estou interessado principalmente na clarificação particular que a carta astral traz relativamente certas complicações do carácter. Em casos de difícil diagnóstico psicológico, usualmente faço um horóscopo para ter um outro ponto de vista a partir dum ângulo completamente diferente. Tenho que dizer que muitas vezes verifico que os dados astrológicos elucidam aspectos da personalidade que eu de outro modo seria incapaz de compreender. A partir destas experiências formei a opinião que a astrologia é de particular interesse para o psicólogo, visto que contêm uma espécie de experiência psicológica a que chamamos “projectada” – isto significa que nós encontramos os factos psicológicos como se eles estivessem nas constelações.”

O psicanalista Carlos Amaral Dias, num artigo da Revista Atlântico de Janeiro de 2006 “Os Portugueses Preferem a Astrologia” p. 31, diz que a astrologia “é um resto ridículo do mundo pré-científico. Só a imbecilidade e a iliteracia permitem que tal coisa continue a sobreviver da maneira como sobrevive”, e conclui dizendo duvidar “ter mais alguma coisa a dizer sobre alto tão rasca”. Encontrei-me em algumas ocasiões com Amaral Dias, nomeadamente em casa dum amigo comum psicanalista, e tenho por ele grande consideração… mas não tanta como por Jung.

Também me seria fácil dizer das teorias de Freud que são um meio para explorar durante anos os traumas infantis dos pacientes; ou que a sua teoria da sexualidade, que inclui o Complexo de Édipo e o desejo da criança de poucos anos de matar o pai e possuir a mãe, só dá para rir – para muitos deu antes para se escandalizarem. Mas prefiro dizer que a psicanálise é uma área interessante e que lançou algumas luzes válidas sobre a realidade pulsional dos seres humanos. É certo que não posso seguir Freud nas suas concepções sobre o inconsciente como uma espécie de caixa de lixo emocional onde estão os traumas e os desejos sexuais. Por que não há-de ser também lugar de intuições e inspirações, como aliás pensa Jung, e como se observa nas criações de muitos artistas e escritores geniais?

As pessoas que passam anos a fazer psicanálise fazem-me lembrar aqueles navegadores que fazem grandes viagens… à volta do seu umbigo. Dificilmente consigo imaginar algo mais enfadonho do que passar anos à volta do triângulo edipiano, dos sentimentos de desamor e das memórias traumáticas da infância. Diversamente da psicanálise, que vive do passado, a astrologia filosófica – que tenho vindo a divulgar e estou a sistematizar num livro a publicar em breve – focaliza-se no futuro e na possibilidade de desenvolver uma maior consciência sobre as nossas potencialidades projectadas no tempo.

Tanto a psicanálise como a astrologia são dois sistemas de interpretação de realidades humanas, mas creio que há dois pilares fundamentais que as distinguem: enquanto uma foi inventada por Freud, a outra foi inspirada na tradição filosófica grega e apurada ao longo de séculos pelo contributo de muitas culturas; enquanto uma vive da interpretação do passado a outra ultrapassa a barreira do tempo, projecta-se no futuro e propõe compreender o ser humano na sua dimensão cósmica à luz do Logos universal.

9.10.2007

Este artigo pode ser utilizado desde que referido o Autor e o Site:
Referência do artigo: Prudêncio, José (2007) "Psicanálise e Astrologia", www.joseprudencio.com\____2_artigos.html
9. OBJECÇÕES CRISTÃS À ASTROLOGIA
José Prudêncio
Podemos definir as objecções cristãs à astrologia como uma luta pelo monopólio da relação com o transcendente, não apenas no Antigo Testamento mas também através dos séculos. Mesmo hoje, quando lemos o Catecismo da Igreja Católica, a oposição à astrologia é feita no contexto do primeiro mandamento: a astrologia não é analisada na sua própria especificidade mas antes na perspectiva mais ampla da adivinhação e da superstição. As objecções dos profetas na Bíblia supõem a afirmação do “Deus único” e a luta contra outras divindades. O pressuposto é que a astrologia é um tipo de religião com diversos deuses aos quais não deve ser prestado culto dado que isso é devido apenas ao único Deus verdadeiro.

Podemos considerar quatro referências principais no que concerne às objecções cristãs à astrologia: a Bíblia, os Padres da Igreja, Santo Agostinho e o Catecismo da Igreja Católica. As primeiras três podem ser consideradas as fontes da posição oficial do cristianismo relativamente à astrologia. A quarta é interessante apenas na medida em que faz uma referência directa e contemporânea à astrologia e clarifica a posição da Igreja no contexto do primeiro mandamento: “Eu sou o Senhor, teu Deus, que te fez sair do Egipto, de uma casa de escravidão. Não terás outros deuses além de Mim. Não farás para ti imagens esculpidas, nem qualquer imagem do que existe no alto dos Céus, ou do que existe em baixo, na Terra, ou do que existe nas águas. Não te prostrarás diante delas nem lhes prestarás culto, porque Eu, o Senhor teu Deus, sou um Deus cioso: castigo a ofensa dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que Me ofendem; mas uso de misericórdia até à milésima geração com aqueles que me amam e guardam os meus mandamentos” (Êxodo 20, 2-5).

A referência à astrologia no Catecismo da Igreja Católica de 1993 também é interessante porque foi aquela que gerou maior impacto, em tempos recentes, entre a comunidade astrológica, o que conduziu a um renovado debate sobre a relação entre a fé cristã e a crença na astrologia. Entre o tempo de Santo Agostinho e o Catecismo de 1993 encontramos muitas referências e objecções cristãs à astrologia mas, em geral, estas não contêm nada de fundamentalmente novo. De facto, as objecções cristãs à astrologia permanecem as mesmas desde o tempo de Santo Agostinho.

Na sua origem a astrologia pode ser considerada uma religião astral, o que pode explicar o porquê de algumas das primeiras objecções provirem do domínio religioso, em particular do cristianismo. No Antigo Testamento encontramos várias objecções à astrologia dos profetas cuja base é a ideia de que os astrólogos não podem salvar ninguém, assim como não podem saber o que vai acontecer, porque apenas Deus pode salvar e conhecer o futuro. Podemos encontrar esta ideia no tempo da Babilónia assim como no sonho do rei Nabucodonosor. Em Isaías 2, 27-28, o profeta anuncia a destruição da Babilónia e é dito que ninguém a poderá salvar, nem mesmo os astrólogos. Em Daniel 2, 27-28, o profeta diz que “o mistério que o rei procura desvendar, nem os sábios nem os adivinhos nem os astrólogos podem dá-lo a conhecer ao rei. Mas há um Deus no céu que revela os mistérios, e que dá a conhecer ao rei Nabucodonosor o que deve acontecer no fim dos dias”. Estas palavras transmitem algumas ideias claras e simples: há apenas um Deus e uma verdade; Deus é o único que pode salvar e o único que pode conhecer o futuro. Estas ideias vão constituir o fundamento de todas as posteriores objecções cristãs à astrologia.

Ainda no Antigo Testamento, no Deuteronómio 18, 9-14, encontramos a condenação da prática da magia e da adivinhação, neste sentido é interessante notar que a atitude cristã contemporânea em relação à astrologia, tal como a apresentada no Catecismo 2115-2117, é a mesma que já se verificava na Bíblia, nomeadamente, que apenas Deus conhece o futuro e pode salvar, e que a adivinhação e a magia são proibidas.

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Referência do artigo: Prudêncio, José (2007) "Objecções Cristãs à Astrologia", www.joseprudencio.com\____2_artigos.html
Última actualização: Agosto de 2009
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